2 minutos só…

2 minutos só…

Em 1947, os cientistas responsáveis em fazer análise dos perigos relacionados aos artefatos nucleares, o Boletim dos Cientistas Atômicos, BPA, na sigla em inglês criaram uma espécie de relógio que ao invés de andar pra frente, anda para trás. Ele mede o quão perto o planeta Terra está de ser destruído. Trata-se do Relógio do Apocalipse.

E em 1953, quando os EUA e a URSS testaram bombas termonucleares pela primeira vez, essa medição metafórica, (já que esse relógio é na verdade uma ilustração simbólica, os ponteiros do relógio não se movem por meio de uma medida científica, mas de acordo com o parecer dos integrantes do conselho de ciência e segurança do BPA, que se reúne duas vezes por ano para determinar o quanto falta para meia-noite), chegou à terrível marca de dois minutos para a meia noite!

Sabendo que meia noite é o fim do mundo esse era um alerta vermelho de que era preciso se movimentar. Nossa sorte foi que os presidentes dos respectivos países mais poderosos do mundo (Eisenhouwer dos Estados Unidos e Gueorgui Malenkov da União Soviética) vendo a situação crítica que poderiam colocar toda a humanidade preferiram iniciar uma política que ficaria conhecida mais tarde como guerra fria, já que os combates e as disputas entre as duas superpotências ocorreriam de forma indireta sem o confronto armado direto.

Pois bem, o Iron Maiden, uma banda britânica de heavy metal, formada em 1975, pelo baixista Steve Harris, cujo nome é homônimo de um instrumento de tortura medieval que aparece no filme “O Homem da Máscara de Ferro”, baseado na obra do romancista francês Alexandre Dumas ousou fazer uma canção falando disso. Essa banda, muitas vezes incompreendida, tem um álbum dentre os mais interessantes já feitos. “Powerslave” com os singles “Aces High” e a antológica “Rime of the Ancient Mariner”, esta baseada no poema homônimo de Samuel Taylor Coleridge que possui 13 minutos de duração, uma das mais épicas canções de metal feitas na época, além é claro, da citada música que fala dos “dois minutos para a meia noite”. Na letra traduzida, no refrão o vocalista Bruce Dickinson canta a plenos pulmões “2 minutos para a meia noite. As mãos que amedrontam o destino. 2 minutos para a meia noite. Matar o não-nascido no útero”. A música cita os gastos exorbitantes com armamentos enquanto milhares de pessoas morrem de fome no mundo. Há referências ao gosto que o ser humano nutre pela guerra e por conflitos desnecessários. Enfim, é uma ‘musicassa’ daquelas que deveríamos trabalhar em sala de aula, caso nossos alunos fossem um tanto mais interessados e aplicados.

E não é que essa música está mais atual do que nunca!

Infelizmente está. Em janeiro a BPA se reuniu e após aferirem que com a chegada de Donald Trump ao poder na maior potência econômica e militar do mundo, assim como a prevalência no poder da Rússia, a mais forte ex-  república soviética, de Vladmir Putin e com um doido varrido no poder da Coreia do Norte, o tal de Kim Jong-Un, o país mais fechado do mundo, cujos habitantes em pleno século XXI, não tem acesso a internet e sofrem com a miséria e continuam vendo em seu líder uma espécie de deus, sem falar, é claro, que ele usa de tecnologia militar para intimidar os outros países, nós voltamos ao mesmo ‘horário’ de 1953, os mesmos dois minutos para a meia noite. Só para que se tenha uma ideia, durante a Crise dos Mísseis, um dos momentos mais turbulentos da Guerra Fria, em 1962, o Relógio marcava que faltavam sete minutos.

É que além dos perigos militares temos também os problemas climáticos.

O meu implacável otimismo me faz crer que como em 1953 a sensatez vingará. Que para cada Trump existe uma Angela Merkel; que para um Nicolas Maduro há um Macron; que para um Putin temos um Shinzo Abe e ainda bem que o Kim Jong-Un, na verdade não passa de um moleque. E, esperemos que o líder chinês Xi Jinping consiga dar um jeito nesse moleque.

Quanto ao clima, também que façamos nossa parte. Acho que esse é um problema que é de todos. Não só dos líderes que assinaram ou desassinaram o “Acordo de Paris”, mas de toda a humanidade. E, vendo o fim tão perto, que sejamos mais cuidadosos, pelo amor de Deus…

E por falar em Deus, talvez esse meu texto e minhas ideias de nada valem, pois o apocalipse seja uma inevitável escolha, por sermos tão falhos, avaros, mesquinhos, violentos, pecaminosos e ambiciosos. O fim é algo que já foi cantado lá atrás pelos profetas e não por um Dickinson.

Que aproveitemos nosso tempo ouvindo boa música, amando nossos entes queridos, nossa família, fazendo arte como pudermos e procurando o melhor para nós mesmos. Enfim vivendo.

Só não posso deixar de contar aqui um momento de minha juventude, quando ouvia muito o Maiden e saía final de semana para beber e me divertir, com um amigo e primo, o Perrô, com o relógio no pulso parado nos “dois minutos para a meia noite” e quando alguém, sem as horas nos perguntasse delas, olhávamos nossos relógios simples e com naturalidade, fosse qual hora fosse, respondíamos sempre:

“Dois minutos para a meia noite”.

Marco Antônio de Almeida

  

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