A maior demonstração de coragem do século!

A maior demonstração de coragem do século!

Tonhão, Boca e Alfredo eram “amigos de copo”, como se diz por aí, e não saiam do Bar do Gordo. Todos os dias após o trabalho, podia apostar e ganhar que lá estariam eles tomando uma gelada e comendo polenta frita na hora. O excesso de gordura era por conta da casa.

Nos finais de semana e feriados, o expediente começava mais cedo, e lá pelas 14 eles já batiam ponto no finório estabelecimento. Só que nessas ocasiões especiais, o petisco era a costela no bafo que só o Gordo sabia como fazer.

Não sei bem ao certo como, mas Gordo tinha conseguido um Alvará de Funcionamento no último mês. Antes disso, ele sempre atuou na ilegalidade, mas precisou agilizar as coisas quando o pessoal da Vigilância Sanitária passou a “bater forte”, como ele dizia com visível indignação.

  • Estão querendo tirar meu ganha pão só porque uma ratazana decidiu criar ninho no depósito! Que culpa eu tenho por isso?

Assim como em todo boteco interiorano que se preze, lá também havia dois ou três frequentadores que eram compelidos a mostrarem sua coragem aos demais, dia sim e dia não. No caso do Bar do Gordo, esses caras eram justamente Tonhão, Boca e Alfredo. Certo dia, eles estavam discutindo acaloradamente sobre seus feitos, buscando obter para si, o título de Chuck Norris do pedaço.

Boca logo afirmou, convicto:

  • Uma vez precisei lutar por minha vida contra uma onça que cruzou meu caminho durante uma pescaria lá no Riacho Longo, na divisa de Vila Verde com Santo Ivo! Se eu não fosse um cara forte e astuto, jamais teria escapado daquela situação com vida e sem nenhuma sequela!
  • Isso não é nada, meu caro Boca – disse o convencido Alfredo. Eu saí ileso de um capotamento de caminhão enquanto transportava soja do Mato Grosso pra cá. Seis pessoas morreram, foi uma coisa horrível, sangue para todo lado!

Tonhão deu um sorriso de soslaio, bem assim como quem sabe que já ganhou a parada, e disparou:

  • Gordo! Preciso mostrar quem aqui é o verdadeiro Senhor Coragem, o que merece o título de Serjão Berranteiro… Me traga um copo de leite e uma manga!

Após ouvir isso, Gordo paralisou. Dava para ver as gotas de suor brotando de sua testa, as quais ele logo enxugaria com o mesmo pano de prato que usava para secar os copos que lavava com frequência diante dos clientes, para que todos vissem como ele era um cara limpo…

Assim que o desafio se espalhou pelo Bar, todo o pessoal do boteco parou de conversar e sorrir. O clima ficou pesado, afinal, aquela não era uma aposta comum. Tonhão tinha ido longe demais dessa vez. Tanto que se ele desistisse, todos fariam de conta que nada jamais aconteceu.

Com todos reagindo daquela maneira estranhamente defensiva, Tonhão quase perdeu a coragem. O que o motivou a continuar foi a forma como todo mundo o olhava com admiração. Ele não tinha outra opção, senão reafirmar o pedido:

  • Vamos, Gordo! Não tenho o dia todo. Traga o leite e a manga!
  • Eu tenho o leite, mas não a manga…
  • Então manda o seu Sobrinho ir na quitanda do Chico Verdureiro buscar, ué!
  • Mas é que…
  • Sem enrolação, Gordo! Manda buscar a manga. Preciso provar que aqui tem coragem!

E foi assim que Gordo se viu obrigado a mandar Miguel, o seu sobrinho que trabalhava meio período no Bar, buscar a tal da manga com o Chico Verdureiro.

Uma coisa interessante de se dizer, tanto que vale um parênteses nessa história, é que que Gordo gostava de contar para todo mundo que bancava a faculdade de Miguel, para ele cursar Administração e não precisar aguentar bêbados a vida toda para sobreviver aos trancos e barrancos. “Chega de sofredores na família Oliveira! Alguém precisa se dar bem urgentemente”, dizia.

Mas, voltando ao assunto: No caminho da Quitanda, Miguel contou para tantas pessoas quantas fora possível, o que estava se passando no Bar de seu Tio. Não demorou nadinha para que boa parte do pessoal do bairro se aglomerasse no Bar do Gordo, que nunca esteve tão lotado. Tinha gente até na rua!

Carlinhos, que era um picareta conhecido na região, iniciou uma aposta que teve muitos adeptos: Desafiou todos por 5 contra 10 Reais, que Tonhão sobreviveria sem maiores consequências à fatídica “Vitamina da Morte”, como tinha sido apelidada por alguém instantes antes de ele começar a arrecadar o dinheiro que – esperava – seria seu em breve, sem maiores esforços. Muitos diziam que seu trabalho era descobrir como ganhar dinheiro sem ter que fazer muito esforço, mas ele discordava. Carlinhos dizia que ganhar dinheiro fácil era um estilo de vida. “Trabalhe com o que gosta, e nunca terá de trabalhar”, esse era o seu lema de vida.

Mas eu divaguei novamente, me perdoe! Vamos voltar ao assunto mais uma vez: Assim que Miguel veio da Quitanda carregando a manga com tanto cuidado, que parecia que a mesma era uma granada prestes a explodir, Gordo pediu para que ele trouxesse o liquidificador da cozinha para o balcão da frente. Não queria, num momento tão delicado para a história do seu comércio, que suspeitassem que ele não havia sido honesto ao bater o leite com a manga, favorecendo assim, Tonhão.

Gordo descascou a fruta cerimoniosamente, colocou quatro grandes pedaços no liquidificador, cobriu tudo com leite, colocou um pouco de açúcar e bateu tudo na velocidade 5 por cerca de 40 segundos.

Menos de três minutos depois, Tonhão tinha diante de si um belo copo com 350 ML da mais pura vitamina de manga que alguém poderia desejar.

Não exitou. Sabia que se não tomasse todo o líquido de uma só vez, diriam que estava com medo. Por isso, virou o copo de uma só vez.

Assim que terminou, levantou da mesinha que costumava se sentar todos os dias, foi até o balcão e bateu o copo com força contra a ardósia, tal como se tivesse tomado uma boa dose de pinga, como fazia nos dias de frio. Mas antes que pudesse dizer algo, cambaleou e caiu morto diante de todos os que estavam ali para vê-lo cumprir o desafio.

Como não poderia deixar de ser, o povo todo se alvoroçou. Até que chamassem o SAMU para remover o corpo do pobre Tonhão, ninguém tinha cabeça para outra coisa. Por isso, foi bem depois que perceberam: O trambiqueiro do Carlinhos tinha sumido levando consigo mais de 700 reais que havia arrecadado para a aposta que tinha proposto naquela tarde!

O fato fez com que um ou outro apostador lesado afirmasse categoricamente que iria pegar o sujeito num beco qualquer, mas a maioria relevou o golpe e só se interessava em falar do morto…

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UM DIA DEPOIS…

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No dia seguinte, durante o enterro de Tonhão, não se falava noutra coisa senão na maldita “Vitamina da Morte”.

O fato é que ninguém parecia se importar com o Laudo Técnico do Perito do Instituto Médico Legal, que afastava por completo a hipótese de a mistura de leite com manga ter sido a responsável pelo óbito.

Para o Perito – dizia o Laudo – os três maços diários de cigarro que Tonhão fumava orgulhosamente, foram os prováveis causadores do infarto fulminante que o levou para junto do Senhor.

É justo dizer também que o Perito jamais misturou leite com manga, afinal, sua avó sempre o alertara para os efeitos mortais da mistura. Nunca era bom desafiar a sabedoria popular, ainda que a ciência dissesse exatamente o contrário!

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