Amizade, mentiras e um disco voador

Amizade, mentiras e um disco voador

Ronaldo e Ederaldo eram amigos desde muito pequenos e cresceram unidos até o final da efervescente adolescência.  Costumavam fazer praticamente tudo juntos, desde ir à escola ou cabular aulas para jogar bola em alguns dos vários terrenos vagos das redondezas.

Apesar da união quase que fraternal eram muito diferentes, Ronaldo era filho único, criado juntamente com a avó, tímido, super inteligente, tinha uma memória invejável e habilidade de fazer as lições de casa ainda em classe, o que fazia ser disputado entre os grupos da turma. Seu gosto pela leitura foi o motivo ao qual escolhesse a futura formação em letras e todo dia por volta das seis da tarde um grito ecoava pelo quarteirão, “Ronaaaaaldo” e logo em seguida se ouvia o derradeiro aviso, “Ronaldo Silvério da Silva Junior, já pra casa!”, isso era o sinal que as brincadeiras com o inseparável amigo chegavam ao final, hoje vive na capital, é professor de letras na USP e também ganha a vida como tradutor em cinco línguas as quais domina fluentemente.  Já Ederaldo era o oposto, neto e filho de mecânico, sabia que o futuro ofício estava garantido, dedicando-se ou não aos estudos e no bairro tinha fama de mentiroso crônico. Uma de suas maiores balelas ficara lendária, dizia ele que um dia soltando pipa sob a linha férrea próximo a CEAGESP com “Decavê”, seu cão de estimação, um disco voador saiu de trás de uma nuvem, se aproximou e abduziu o pobre cachorro. Vendo aquilo, disse que soltou a linha, correu desesperadamente para a oficina do pai, pegou seu estilingue e numa só bodocada derrubou o OVNI salvando “Decavê”, desde então o suposto objeto voador ficara guardado num “barracãozinho” do pai à espera de peças para o conserto, pois teve avarias com a queda.

E não é que o destino fez com que justamente numa dessas, entre inúmeras, mentiras do Ederaldo que constrangeu coradamente Ronaldo perante uma paquera colegial os afastaram pela primeira, única e derradeira vez!  Ronaldo prometeu a si mesmo que não mais conversaria com Ederaldo enquanto não houvesse pedido de desculpas e que ele se comprometesse a nunca mais contar uma mentira qualquer, por mais “inocente” que pudesse ser.

Tempo vai, meses, anos, décadas, distância geográfica e num dia normal acabaram se encontrando em perfis de amigos em comum na mais famosa rede social. Quem primeiro adicionou quem, não se sabe, mas pareciam duas velhas comadres curtindo e comentando a postagem do outro como se sempre tivessem contato sem rusgas passadas. Papo virtual vai nostálgico, e-mail vem atualizado que certo dia, Ederaldo ao ir para a Capital fazer compras de peças para sua oficina, diz que precisa de uma ajudinha urgentemente de Ronaldo e o convida para comerem juntos, botar – ainda mais – o papo em dia e no dia seguinte num shopping se encontram no hall inferior.

– Bom te ver novamente, “quatro olhos!”

– Como vai, Edy? Há quanto tempo não ouço esse meu apelido de criança! E essa barba grisalha?

– É efeito dos “enta” e já estou fazendo check-up anualmente. Vamos então comer alguma coisa e conversar?  Fast food ou self service?

– Particularmente, como morador daqui, prefiro delivery, mas agora no happy hour pode ser um barbecue nadalight.

Sentam-se na praça de alimentação e por horas proseiam sobre os mais diversos assuntos, amizade, Avaré, política, futebol, casamento, filhos, etc. Até que dando o tempo de cada um, como um casal de novos namorados relutando em se despedirem, Ronaldo decide perguntar.

– Pois bem, Edy. Qual era a ajuda que disse precisar de mim?  Sabe que nunca te negaria um auxílio.

– Ah! O help. Você sabe que “má le má” sei falar o português avareense e inglês, nothing de nothing, né!?

– Sei que nunca foi um bom aluno no velho Industrial. Não por minha culpa, que fique claro!

– Então, lembra do disco voador que está em casa?

– Ai meu Deus!

– É que os ETs retornaram após alguns anos-luz e enfim trouxeram as peças novas do disco voador querendo levá-lo, mas só sabem falar o inglês “hollywoodiano” e preciso de alguém como intérprete, topas!?

Nesse momento, Ronaldo tira os óculos, olha calado para o vazio, levanta-se e caminha até a escada rolante onde só se ouviu dizendo por algumas vezes “Não acredito!”.

Dizem os amigos em comum que após esse dia, Ronaldo bloqueou o perfil de seu novamente ex-amigo em todas as redes sociais e e-mail, porém quando perguntam para Ederaldo sobre isso, ele com um sorriso de canto de boca diz: “É mentira!”

 

 

Twitter: @MauricioBruno

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