Coisas que só a ‘Geração X’ viu e viveu.

Coisas que só a ‘Geração X’ viu e viveu.

Parafraseando bordões do saudoso Fiori Gigliotti, quando nascemos ele diria “Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”, do “engantinhar” ao correr é só um pulinho cronológico e já com algum tempo de vida ele diria “E o tempo passa, torcida brasileira”. Pois é, e passou mesmo, vieram depois de nós às gerações Y e Z (alguns falam em até outras subdivisões), mais acostumadas com essa era tecnológica toda na palma da mão. Só pra nos localizarmos nas idades, geração X, salvo algumas outras interpretações, é àquela de nascidos no final dos anos 60 até começo dos 80 e tem uma idade compreendida entre 32 a 51 anos.

Bom, como eu pertenço a esta geração, crescida com a paranóia da Guerra Fria em seu final, sob a Constituinte de 1988 e acompanhado o começo da era da informação, vejo que as gerações Y (imediatista) e Z (mega super imediatista) nem imaginam o que nós, os “X”, passamos e vivemos.

Tem várias coisas, mas pensando onde cresci, citarei ao menos alguns.

A relação com o telefone – Primeiramente, telefone até uns 15 anos era artigo de luxo, você até tinha ações da TELESP por ter uma linha em casa. Pela cidade havia orelhões, vermelhos para ligações locais e azuis para interurbanos que, antes dos modernos cartões magnéticos, funcionavam com fichas de metal. Fazer ligação a cobrar até começo dos anos 80 era você acionar por um determinado número uma telefonista, essa então ligaria para o número desejado perguntando se o dono da linha aceitaria ou não a cobrança, coisas que só vemos em filmes  

 

antigos.

Mimeógrafo – Em dia de prova sabíamos que vinha aquela folha semi úmida, meio borrada de azul e cheirava tanto a álcool que até o final do teste cada colega de classe nosso era desinfetado ou embriagado. O chique era o professor usar o projetor de slide no maior estilo “cineminha da Mônica” ou ao invés de usar a lousa, o retro projetor.

Escutar músicaEmissoras em AM ainda eram predominantes, “bolachões” na vitrola ou um gravador de K7. Tudo isso foi condensado num único aparelho, o ostentoso 3×1 que também proporcionou as primeiras formas amadoras de “piratear”. Gravavam-se em fita cassete os vinis emprestados ou diretamente do rádio torcendo para não ter vinheta da emissora no meio. Tempo depois, podia-se levar a música aonde fosse com o invento da Sony, o “walkman”.

Compras a prazo Bem antes do cartão de crédito, costumava a se marcar em fichinhas no estabelecimento ou cadernetas que ficavam com o consumidor, era uma relação de extrema confiança entre ambos, no fio do bigode, como diziam. Lembro que ia todo santo dia à padaria pegar leite e pão (bengala) para a atendente marcar na caderneta que meu pai acertava uma vez por mês e ai de mim se tivesse alguma coisa (no caso, doces e iogurtes) diferente que eu tivesse levado!

Segurança no trânsito – Claro que trafegar na época da minha infância era infinitamente melhor e mais calmo que agora, havia poucos carros nas ruas dando a chance para nós até batermos uma bola em ruas inimagináveis hoje.

 

Era costume, para quem podia, ter um carro (da família) que era usado só se necessário, no nosso caso, um Opala 77 branco para dois adultos, cinco crianças e um cachorro. Cinto de segurança pra quê!? Viajávamos até no porta-malas e vou te contar, era bem divertido. Capacete só quando foi obrigatório em meados dos anos 90 e mesmo assim sobrevivemos.

Sistema bancário Era espantoso como tudo na ponta (na agência) era manual e dava certo, você iria depositar ou pagar alguma coisa no banco e o recibo era preenchido à caneta com uma autenticação mecânica de máquina registradora. Pedir saldo era só pessoalmente com um bancário que vinha com um número escrito pelo próprio num papelzinho de rascunho após conferir num fichário de contas. A única coisa que podia te salvar do calvário das filas era ter um parente que trabalhasse no banco, assim poderia deixar todo o serviço com ele e pegar os comprovantes ao fim do dia.

Curso de datilografia – Quem almejava trabalhar num escritório ou ser funcionário público obrigatoriamente tinha que saber usar máquina de escrever, hoje um trambolhão, Remington ou Olivetti, que alguns conservam escondido em algum quartinho. O começo do curso de datilografia é como tortura inquisitória, suas mãos ficavam por debaixo de uma tábua para não se ter a visão das teclas enquanto seus dedos digitavam sem ritmo algum “asdfg + espaço, se não desistisse de cara dessa fase, seria apto a ser um grande datilógrafo com certificado ornando a parede do quarto, como o meu da Olivetti.

 

Circo com animais – Para uma ingênua criança, a visão de animais selvagens (leões, tigres, elefantes, ursos, chimpanzés, etc) gera sensações que vão da fobia extrema a mais pura fascinação. Quando chegava circo na cidade, geralmente ficavam próximos de casa, ia todo dia antes ou depois da escola ver os animais ignorando totalmente como eram tratados, só tempo depois fui ter a consciência de que a grande maioria sofria e apoiei a iniciativa da proibição total de animais em circo (também em rodeios). O lado triste da lei é que muitos animais foram abandonados pelo país.

Cartas – Mandar cartas pelo correio era a principal forma de contato com familiares e amigos distantes, era passar horas escrevendo, ir ao posto do correio, selar e enviar, poderia demorar semanas para chegar em seu destino, mas chegava. Imagine isso para uma geração que tem crise de ansiedade para ver se sua mensagem de aplicativo foi visualizada!? Legal também era colecionar selos, receber cartões postais de viagens e novidades que demorariam em muito pra chegar até aqui, como lançamentos musicais que meu amigo me enviava do Japão em K7 no meio de revistas do gênero.

Brincadeiras Depois da escola, a rua, de um modo geral, era nosso lugar predileto. Podia-se soltar pipa ou jogar futebol num campinho (terreno baldio limpo), andar de bicicleta na praça tirando a paciência do guarda do jardim, jogar bets ou taco para o desespero de algum vizinho e suas janelas. Os mais “técnicos” confeccionavam seus carrinhos de rolimã, já os mais tímidos e futuros “nerds” gostavam de ficar mais em casa com seus jogos de tabuleiro.

 

Assistir a filmes – Cinema era ainda a opção mais atrativa para àquele filme, ainda que a TV já tivesse arrebanhado maior parte do público. Mas foi o Vídeo Cassete que praticamente extinguiu as salas de cinema e criou uma nova mania, acotovelar-se em corredores de locadoras de fitas VHS para tentar pegar o lançamento do mês. Essa corrida durou um tempinho atrás, só mudando o formato para DVDs e Blu Ray, hoje, com os serviços de streaming online, as poucas locadoras que resistem diversificaram os negócios. Ah! Os cinemas ressuscitaram mais modernos e voltaram a ser uma boa opção de lazer.

Jogos eletrônicosAlguns bares tinham áreas reservadas para máquinas de Arcade ou Pinball onde a gurizada gastava horas, além de ficha$, é claro. Com o surgimento do Atari, o jogo passou para casa, mas as horas gastas com isso extrapolaram só cessando na hora da novela da mãe ou telejornal do pai, mais à noite, escondido e com a TV sem som, o jogo reiniciava. O legal era poder emprestar cartuchos de jogos ou até alugar, assim o arsenal de opções se ampliava consideravelmente.

Intervalo do colégio – Existe maior “mercado de peixe” que intervalo de escola!? Naqueles poucos minutos, entre um sinal e outro, você poderia bater “bafo” com figurinhas de jogadores, jogar bolinha de gude ou futebol de salão (poucos eram os escolhidos) e queimada para as meninas, além da tradicional paquera, tudo isso depois de comer a merenda. Se um professor faltasse e a escola não tivesse substituto, pronto, estava feita a festa, a quadra esportiva ficava cheia de atividade e interação.

Passatempo local – Como sempre morei perto de linha

 

férrea, era comum transitar por trilhos, pinguelas, barrancos, dormentes, vagões, trens e estação. Sabia até os horários dos quatro trens diários de passageiros, já os de carga não tinham horário fixo. Entre as manias meio malucas do pessoal, havia a de segurar nos dois trilhos e ver o quanto aguentaria o choque (lembrando, os trens eram elétricos) e fazer pulseira de cobre (“sabona”) prendendo um pedaço de fio descascado com fita de plástico no trilho e esperar o trem passar, ficava uma perfeita pulseira que diziam ter efeitos medicinais. Isso até conseguirem acabar com as ferrovias paulistas.

Bom, o tempo passa e passou, talvez rápido, talvez lento e muitas dessas coisas só restam em fotos amareladas e na memória dos pertencentes a tal Geração X, mas algumas coisas ainda insistem em transgredir a temporalidade e efemeridade invadindo outras gerações até acabar o abecedário como Programa Sílvio Santos, Coca-Cola, Especial de fim de ano do Roberto Carlos, Biotônico Fontoura, Merthiolate (não arde mais), conselho de mãe, pomada Minâncora e Almanaque Sadol, que hoje se pode puxar em PDF. Até uma outra!!!

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