Crise (existencial) desses tempos

Crise (existencial) desses tempos

Apontava quase 15 horas no relógio de parede quando na sala de espera do consultório do psicanalista Dr. Sigismundo, Nicodemos é chamado para entrar para sua primeira consulta.  Na sala à meia luz com um retrato de um senhor de cavanhaque ao centro, lá estava o famoso especialista numa poltrona munido com um bloco de notas, Nicodemos entra ressabiado e fecha a porta.

– Boa tarde, Doutor!

 

– Boa tarde!  Por favor, deite-se nesse divã e me conte o que lhe aflige.

 

– Doutor, não sei mais o que sou!

 

– Como assim, meu caro… Hummm…  Nicodemos!   – Diz Sigismundo olhando a ficha ambulatorial.

Nicodemos tira do bolso seu celular, mostra o facebook aberto e diz:

– É isso, Doutor! A cada momento alguém me diz que sou uma coisa.

 

– Hummm! Entendo, mas o que você é ou acha que é!?

 

– É por isso que estou aqui, não sei mais! Deixa eu te dar uns exemplos.  Uma vez comentei sobre os médicos cubanos e me mandaram morar em Cuba, outra elogiei uma fala do Fernando Henrique e me taxaram de coxinha, compartilhei uma frase de Paulo Freire e um amigo me excluiu chamando de comunista, curti a nova reeleição da Merkel e li que era antidemocrático apoiador de ditaduras, falei sobre os efeitos do aquecimento global e disseram que eu era imbecil, estava esperando acabar a novela na rede Globo pra assistir ao jogo e me acusaram de tentar destruir a família brasileira, outra vez disse que tinha visto um documentário na Globonews e me chamaram de tucano de pulôver, elogiei um artigo do Estadão e ouvi que sou um reacionário enrustido, desconfiei de uma decisão da justiça e me destacaram como ateu…

 

– Ateu!?

 

– Pois é, Doutor! Deve ser por isso que dizem que certos juízes são deuses. Curti uma atitude do Papa Francisco e me chamaram de socialista, falei sobre o ensino religioso nas escolas e me chamaram de globalista e darwinista de m…

 

– Darwinista! Essa é nova.

 

– Dessa vez até gostei pra falar a verdade, só não me mandando pra Galápagos, está ótimo! (risos)

 

– Bom, continuando, doutor.  Comentei sobre a tentativa de revogar o estatuto do desarmamento e alguém me chamou de esquerdeopata seguido da hashtag “bolsomito”, compartilhei uma frase do Caetano condenando censura e me taxaram de depravado pedófilo, postei uma frase do Cortella e disseram que fui doutrinado, elogiei alguns pontos da CLT e me falaram que sou um fascista saudosista de Getúlio, curti a página de Karnal e me chamaram de “Maria-vai-com-as-outras”, ou seja, tudo que faço no facebook sou adjetivado de algo. O que eu faço, Doutor!?

 

– Realmente, meu caro. Os tempos são de conflitos de identidade e me diga se tem algum sonho recorrente?

 

– Doutor, volta e meia sonho que estou numa esquina sozinho e quando pego o celular aparece um monte de gente de verde e amarelo com panelas à mão seguindo um pato amarelo gigante e de outro lado, pessoas com bandeiras vermelhas esbravejando palavras de ordem e tal, depois guardo o celular no bolso e tudo desaparece, daí acordo assustado.  O que será que quer dizer, Doutor!?

 

– Hummm! Você está preste a ser contaminado pela síndrome da atualidade cujo vírus se espalhou rapidamente por cabos de rede, wi-fi e 3G que se chama “Miopis Intolerantis de Zuckerberg”, mas fique calmo.  Seu caso é no início e se ainda não compartilhou nada de “Fakenews” ou mêmes de algum grupo infectado, o tratamento é simples, basta apenas desconectar do facebook por uma semana e no máximo navegar apenas em portais confiáveis, assim não corre o risco de ler algum post ou ter a vontade de argumentar comentários contaminados.  Após uma semana de jejum dessa rede social, pode voltar aos poucos, já terá o discernimento normalizado, mas não responda comentários de terceiros e conte até 10 ao ver algum post contaminado pelo vírus rolando sua timeline para baixo. Não há necessidade de excluir ninguém que esteja supostamente infectado, só tome cuidado ao curtir ou comentar possíveis posts suspeitos.  Faça isso e retorne daqui uns 15 dias.

 

– Ok, doutor. Obrigado!

 

Vendo que já fazia um mês e Nicodemos não dera sinal de vida, resolveu pessoalmente ligar para seu, até então, paciente.

– Alô! Nicodemos!?  É o Dr. Sigismundo, gostaria de saber como está indo o tratamento.

 

– Doutor do céu! Não retornei mais ao consultório, pois estou curado! Redescobri o Twitter e até voltei a usar a tal rede social agora com filtro para o que realmente importa e se pode aproveitar, dou até risada vendo o bom humor de alguns amigos e o resto de banalidade passa despercebido pela minha timeline sem maiores consequência.  Muito obrigado, Doutor!  Mas a propósito, o que foi aquele seu post falando “Chupa Porcada”, hein!?  Doutor!  Doutor! Cadê você!?  Túúúúúúúúú! Túúúúúúúúú! Túúúúúúúúú!

 

 

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