Eu ainda estou aqui, apesar de tudo

Eu ainda estou aqui, apesar de tudo

Eu morri em 2002, mas meu corpo ainda vive nos dias de hoje. Calma, essa não é mais uma daquelas estórias sobre fantasmas. Tenho Alzheimer, e considero que estou morto faz tempo. Não reconheço o nome das pessoas que amei, não consigo me lembrar onde guardei minha garrafinha de água e as vezes acabo por fazer minhas necessidades nas calças porque me esqueço de ir ao banheiro.

Ah, esqueci de me apresentar: Sou um… não, eu era um empresário aposentado e professor de economia. Antes da doença, me chamavam de Antônio Carlos. Eu era realmente um cara admirado. No alto de meus 70 anos, ainda gozava de boa saúde e disposição, apesar de meus cabelos brancos. Confesso que demorei para suspeitar dos sintomas da doença que me consumia vagarosamente, talvez porque não quisesse admitir que estava perdendo a guerra antes mesmo de começar a lutar.

Descobri que a coisa estava feia e que precisava de ajuda quando estava recebendo um prêmio em razão de minha Corretora de Valores ter se destacado perante as demais. Na hora, apesar de gostar e estar sempre muito habituado a fazer discursos, não consegui dizer uma única palavra sequer, pois percebi que não sabia onde estava. Também não conseguia me lembrar do nome das pessoas que me cercavam, além do de Clara, minha mulher, que tão logo deixamos a cerimônia, me obrigou a procurar um médico. Eu estava perdendo a memória, e não ficando retardado, então obedeci.

Clara me levou até o Clínico-Geral da moda, o qual fez uma série de testes de memória e ainda pediu um monte de exames só para concluir o óbvio: Eu tinha Alzheimer. Mas o pior mesmo eram os remédios, devido aos seus efeitos colaterais. Para mim, os piores eram diarreia e perda de apetite.

No início, carregava um caderninho para anotar tudo o que julgava importante e desejava lembrar mais tarde: Nomes de pessoas, lugares ou do horário da corrida de Fórmula 1.

Também disseram que era bom ler, pintar, caminhar e até mesmo cuidar do jardim. Funcionou por um tempo, mas para ser sincero, esse negócio de dieta saudável com peixes, frutas, legumes e vegetais não é para mim. A verdade é que o meu negócio sempre foi pedir um lanche com bacon, calabresa apimentada e hambúrguer artesanal. Para ajudar tudo isso descer, costumava pedir uma Coca Cola de 600ML. Também gostava de acender um bom charuto depois da refeição, se a rotina desse uma trégua, o que acontecia umas duas ou três vezes por Mês.

Talvez você esteja me ouvindo falar, mas não compreenda que o Alzheimer é a forma mais comum de demência que existe. A doença se agrava progressivamente até matar a pessoa. E pior: É muito comum. Dados governamentais apontam que até o ano de 2050, 1 em cada 85 pessoas no mundo vai sofrer com os males da doença. E as coisas só pioram com o aumento da expectativa de vida dos seres humanos, pois apenas 1% dos idosos entre os 65 e 70 anos tem Alzheimer, mas mais de 60% dos que chegam aos 90 anos são portadores da doença.

Mas, voltando a falar de mim, conforme os meses foram se passando, eu já não conseguia mais manter uma conversa lógica com ninguém, então acabei de afastando involuntariamente das pessoas. E, para ser sincero, ninguém parece ter muita disposição para conversar com alguém que – em razão da doença – é rude, irritadiço e não consegue decidir coisas simples como se quer manteiga ou requeijão no pão.

Com o tempo, fui percebendo que meus passos estavam mais lentos, o que destoava da minha personalidade, já que sempre caminhei rápido e pisando firme pelos corredores da minha empresa ou das faculdades por onde passei.

Muita gente não admite e eu também não admitia, mas para falar a verdade, o Alzheimer apaga a vida das pessoas aos poucos. No fim das coisas, tudo o que você aprendeu, estudou ou momentos bacanas que armazenou na sua cabeça não passam de um borrão, mais ou menos como um arquivo corrompido de computador. Ele está ali, você sabe que ele existe, mas não serve para mais nada, a não ser para ocupar espaço no seu cérebro. Não que isso seja um grande problema a essa altura do campeonato, afinal, ele já não serve para muita coisa mesmo…

Com o agravamento da doença, minha esposa Clara precisava colocar os remédios na minha boca, caso contrário, ou eu esquecia de fazê-lo ou tomava comprimidos a mais.

A cada tempo que se passava, as coisas pioravam e a partir de certo dia, até minhas roupas eu não conseguia escolher. Porque tinha a chance de estar frio e eu sair de bermudas ou estar muito calor e eu aparecer de blusa na sala. Isso sem falar que ao escolher peças aleatórias, nunca acertava na combinação de cores e tal.

Com o passar do tempo, fazer minhas necessidades nas calças virou rotina. Numa das vezes, fiz o número dois enquanto comemoravam o aniversário de meu neto mais novo, Paulinho. O fato por si só, foi desconcertante. O problema era que estávamos num restaurante 5 estrelas lotado de gente que, naturalmente, torceu o nariz para o forte cheiro que exalava de minhas calças.

Como você pode ver, aquele velho sentado em sua confortável poltrona com o olhar perdido e fixo para o nada, sou eu. Tudo o que um dia eu aprendi, fui ou conquistei não serve para mais nada. Algumas poucas pessoas ainda me amam, mas pelo que fui, e não pelo que sou ou serei.

O que eu sei, é que de todo o meu legado, a única coisa que ainda importa é o bem que fiz para as pessoas que cruzaram o meu caminho.

Como você pode perceber, o meu fim está próximo. Quando não houver mais nenhum resquício sequer de quem eu fui em meu cérebro, quando eu não conseguir reconhecer por nenhum segundo do dia as pessoas que um dia eu amei ou estiver muito incapacitado e sem nenhuma chance de melhora, quero apenas sentir o tempo passar, sem que hajam aparelhos prolongadores de todo esse sofrimento.

***

Em memória de minha avó, Adelaide Dias Telesse – O início, a razão e o fim de tudo em minha vida.

Previous Ranking de Exposição a Crimes Violentos - Estado de São Paulo
Next Podcast #1