Hambúrguer não dá em árvore: ele é um boi morto

Hambúrguer não dá em árvore: ele é um boi morto

Quando eu tinha 4 ou 5 anos, fiquei extático ao ver um limoeiro carregado. Corri para avisar ou outros: “Pai! Mãe! Achei uma árvore que vende limões!”. O episódio virou piada eterna na minha família –ou não mais, já que o pai morreu, a mãe está senil, e briguei com os demais parentes nas eleições.

Eu era apenas mais uma criança que enxergava o mundo como um gigantesco supermercado.

Daquele tempo para cá, situação só piorou. A comida chega magicamente à porta de casa, quando a mamãe encosta no smartphone.

Em contrapartida, existe um movimento relevante de pessoas que buscam conhecer a origem do alimento. Tornou-se praxe, nos restaurantes ilustrados, identificar a procedência dos ingredientes: queijo da Serra do Curió, bacon artesanal da salumeria Carcamani, café da Fazenda Curupira.

Todos querem saber de onde vem a comida, mas muitos fazem de tudo para não saber o que ela é. Em especial quando se trata de proteína animal –o apelido eufêmico das carnes.

Se árvores não vendem limões, elas tampouco dão hambúrgueres. Toda carne é um pedaço de um animal morto, e tem gente que não suporta essa imagem.

Vegetarianos usam o termo “cadáver”, altamente apelativo. Eu, contudo, preciso admitir que faria o mesmo se estivesse na posição deles.

Piores são as pessoas que comem carne, mas fogem da responsabilidade sobre a morte de um animal.

Meu pai fazia assim. Admiro o velho por inúmeras coisas, mas não por esse traço de sua personalidade.

Se a churrascaria tinha fotos de bois na parede, ele quase passava mal. Quando voltávamos do mercado com 5 quilos de contrafilé, minha mãe ia limpar sebos e pelancas: o pai fechava a porta da cozinha e lá não entrava até que o serviço estivesse acabado.

Assim como ele, há muitos que comem o filé do frango, mas não a coxa que grita nas nossas fuças: “Isto é uma galinha”.

Eu não teria a coragem de matar a minha própria comida, como fazem alguns radicais abilolados. Sempre fui o carnívoro bundão que só conhece a picanha embalada a vácuo.

Para mitigar meu desconforto burguês, fui conhecer 2182.

O boi 2182 era um indivíduo de 681 dias que eu vi ser abatido em Ipuã, no norte do estado de São Paulo. Filho de uma vaca nelore com um touro angus australiano, passou a maior parte de seus quase dois anos de vida em Nhandeara, também no interior paulista.

Vi 2182 entrar no brete, levar um tiro de ar comprimido na testa, ser descourado e desmembrado. Alguns dias depois, recebi em casa nacos da paleta e do lombo de 2182.

Gostei de assistir ao abate? De modo algum. Mas aprendi um montão. Cada fatia de salame, cada coxinha que a gente come significa a morte de pelo menos um animal. É covardia ignorar tal fato.

Fonte: Coluna Cozinha Bruta – Folha de São Paulo – Marcos Nogueira

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