KGB libera arquivos sobre participação de informantes e confunde a Letônia

KGB libera arquivos sobre participação de informantes e confunde a Letônia

Na época da União Soviética, Yuris Taskova delatou para a KGB um vizinho que assistia pornografia alemã e traiu centenas de ativistas contrários ao Kremlin. Por isso, ele e outros como ele sabiam que, se os arquivos da polícia secreta sobre a Letônia viessem a público, como aconteceu em dezembro, suas nefastas atividades seriam reveladas.

“Durante 12 anos, trabalhei para eles com grande entusiasmo”, contou o letão de 63 anos a respeito da época em que foi informante da KGB antes do colapso da União Soviética. No entanto, para outros, o fato de o seu nome se tornar de conhecimento geral foi uma surpresa. “Estou em choque; não tinha ideia”, disse Rolands Tjarve, ex-diretor da emissora nacional da Letônia, depois da independência. Insistindo que ele nunca foi um informante – ou o que a KGB chamava de “agente” – ele falou que iria aos tribunais  para limpar o seu nome.

A Letônia discute há trinta anos sobre o que deve fazer dos arquivos que a KGB deixou para trás. Outros países anteriormente soviéticos, como Lituânia, Estônia e Geórgia, encontraram alguns arquivos da KGB  depois que se libertaram de Moscou. Mas somente a Letônia ficou com uma lista sistematizada por ordem alfabético dos nomes de mais de 4 mil supostos agentes.

Com uma votação do Parlamento da Letônia para que o conteúdo fosse postado online, a nação báltica de dois milhões de habitantes teve de se defrontar com uma questão inquietante. Acaso terá de se ver às voltas com o fato de que o seu povo não foi apenas vítima da opressão soviética, mas, em alguns casos, também colaborador? Ou tornou-se alvo de um complô infame da KGB para semear a discórdia entre as elites pós-independência do país?

Esta última hipótese é amplamente defendida por aqueles que foram expulsos como agentes, mas insistem que nunca trabalharam para a KGB. Eles afirmam que foram vítimas de uma conspiração da polícia secreta soviética que recheou o seu registro de informantes. “É impossível que a KGB deixasse para trás uma lista verdadeira de agentes em um território que considerava inimigo”, disse Tjarve. Os arquivos, prosseguiu, devem ter sido adulterados e deliberadamente deixados como “presente especial” para a Letônia como parte de uma “operação de desinformação”.

Entre os letões que constam dos arquivos estão um ex-primeiro-ministro, o presidente do Supremo Tribunal, líderes das igrejas católica e ortodoxa, cineastas, estrelas da televisão e escritores. Mara Sprudja, diretora do arquivo nacional, que começou a postar os arquivos online em dezembro, disse que ficou chocada ao ver o nome  de Andres Slapins, um cinegrafista morto pelas tropas soviéticas que atacaram os ativistas favoráveis à independência em Riga, a capital, em 1991. “Ele era um herói, não um traidor”, afirmou. “Como pode ter sido agente da KGB?” A divulgação dos nomes, segundo ela, “criou mais confusão”.

Tão estranho quanto alguns dos nomes que aparecem são os que não aparecem, como Janis Rokpelnis, um famoso poeta letão que confessou publicamente em 2017 ter trabalhado para a KGB. Quando a agência de espionagem deixou a Letônia em 1991, abandonou pilhas de documentos, que foram transferidos para o Centro de Documentação das Consequências do Totalitarismo. A Letônia restringiu o acesso aos papéis.

Indulis Zalite, ex-diretor do centro de documentação, duvidou que os arquivos tenham sido deixados como um ato de sabotagem pelos soviéticos. “Tudo estava um caos em 1991”, ele disse. “Não conseguiriam organizar um grande complô”. Mas alertou que os arquivos são “apenas uma parte de um enigma muito grande”, porque dão nomes, mas não detalhes do que os supostos informantes faziam. Isto, acrescentou, reflete uma “falsa realidade” porque os membros da KGB gostavam de gabar o seu sucesso.

Quando os arquivos foram postados online, Vita Zelce, uma historiadora da Universidade da Letônia, encontrou o nome de um antigo professor e de um parente distante com  problemas mentais. “Se estas pessoas fossem realmente agentes, a KGB não passaria de uma piada”, disse. Decidir quem realmente fazia o que depende do acesso a documentos guardados em Moscou, que tem o arquivo completo dos relatórios da KGB letã e listas de informantes. “Infelizmente,” observou Zalite, “não há como obter este tipo de coisa por enquanto”.

Lidja Lasmane, uma veterana de 93 anos do movimento dissidente da era soviética na Letônia, aplaudiu a liberação dos arquivos. Mas diz que chegou tarde demais para servir à verdade histórica ou para acertar uma questão moral: “Como é possível que uma pessoa perfeitamente normal se torne um animal pronto a trair os seus amigos, suas famílias e seu país?”

Lidja, que foi mandada por três vezes para campos de prisioneiros soviéticos, afirmou que era verdade que o sistema soviético pressionava terrivelmente os colaboradores. “Mas cada indivíduo tem uma escolha no fim”, acrescentou. “Sei desde a infância que Deus existe e também o demônio”, afirmou. “Para mim, nunca houve uma escolha real a respeito do que fazer”. Alguns ‘informantes’ negam ter trabalhado para os soviéticos.

 

Fonte: The New York Times | O Estado de São Paulo

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