Minhas Copas

Minhas Copas

Quem nunca parou para ver um bom jogo de copa do mundo que cobre o primeiro pênalti! Eu, como muitos, aprecio um belo jogo, ainda mais se tratando de uma copa. Pra falar a verdade estava nem aí há um tempo, indiferença total, mas não adianta, você vai acompanhando os amistosos e o sangue (latino) começa aos poucos a ferver. Sou da turma que espera àquele jogo específico, um Brasil X Itália (não dessa vez), Argentina X Uruguai, Alemanha X Espanha ou França X Inglaterra e sabendo que terá uma nova sensação ou decepção a cada edição.

Minhas primeiras lembranças de uma Copa do Mundo são de 78 na Argentina,”má le má” sabia o que era futebol, mas eu ficava sentado no chão com o resto de minha família “poltronada” falando alto na casa dos meus padrinhos vendo 22 caras correndo atrás de uma bola e um senhor de preto com apito à boca correndo atrás dos jogadores. Talvez a sala dos meus tios tenha sido motivo do encontro familiar pela TV em cores, tipo de eletrodoméstico até então raro na maioria dos lares brasileiros, em casa mesmo tinha uma Telefunken P/B com conversor de voltagem e aparelho de UHF. Pena que esse ano o Peru e seu goleiro, um argentino naturalizado peruano, Quiroga comprovadamente $e entregaram à dona militarizada da casa numa goleada que tirou o sonho do tetra canarinho.

Em 82 eu já era escalado no time B da escola, o que já era alguma coisa. Sabia de cor e salteado a escalação do time de Telê Santana, o mesmo que não tinha um ponta de ofício, e tinha até um crucifixo como o do atacante Éder ao qual tentava imitar, mas a única semelhança com ele só ficou no fato de eu ser canhoto também. A febre no pátio da escola era jogar “bafo” com as figurinhas do chiclete Ping Pong e tentar completar o álbum da copa do “Naranjito”, semelhante como hoje, sem “bafo” e cuspe na mão. Foi a melhor seleção que vi até hoje jogar e motivo para que eu gostasse do tal “futebol arte”. Pena foram os três gols do artilheiro da copa Paolo Rossi em Sarriá que fez muito marmanjo ficar choramingando pelos cantos.

México 86, pré adolescente, já preferi assistir aos jogos com meus inseparáveis amigos e depois “descer” ao centro em possantes calói cross, BMX e monark barra circular ver a comemoração. Vi talvez o gol mais bonito de todas as copas com Maradona disparando de sua intermediária até a pequena área inglesa já desequilibrado e ele mesmo com a “mano di Dio” despachar a seleção britânica, seria uma vingança pelas Malvinas!? Pena foi o pênalti não marcado em cima do quase descamisado Zico contra a França de Platini pondo fim na era Telê com a amarelinha.

90 na Itália, com o rosto cheio de acne, novamente vi aos jogos com mais amigos para depois comemorar comendo coisas “light”, como X-Tudo no prato e Coca-Cola. Sebastião Lazaroni estava longe de ser unanimidade nacional, aliás, como todos os outros, e a seleção brasileira ficou mais européia do que nunca no modo de jogar, mas… enfim, era nossa seleção. Pena foi justamente num jogo contra nossos eternos e vizinhos rivais argentinos nas oitavas de finais, numa única bola lançada por Maradona ao loiro cabeludo Claudio Caniggia balançar as redes do “Vai que é tuuua” Taffarel e novamente voltarmos prematuramente pra casa.

Agora é na terra do futebol (americano), EUA 94. Nessa copa já fui caseiro e assisti aos jogos ao lado do meu pai. Vi seleções que encantaram o mundo por mostrar que futebol não é só camisa e tradição, é também bola no pé e inteligência ao jogar. A seleção romena provou isso com um futebol ofensivo e dinâmico comandado pelo meio campista Hagi, chegando a passar até pelo time de Diego “dopado” Maradona. O Brasil das duplas Parreira & Zagallo e Bebeto & Romário foram passando fase após fase chegando a final contra, sempre ela, Itália. Seria o jogo do tira-teima, afinal quem seria o primeiro tetra mundial!? Ninguém fez gol durante a bola rolando e na disputa de pênaltis o Brasil se sagrou campeão com um Galvão histérico e Pelé afônico. Foi umas das poucas vezes que vi meu pai chorar. Se há uma cena que define essa copa pra mim, não é o último pênalti de Baggio ou o “embala” nenê de Bebeto, mas sim lembrando em “slow motion” a parábola que a bola do lateral Branco fez numa cobrança de falta, com desvio providencial de Romário, até o gol holandês. Foi a última vez que torci pela seleção brasileira pra valer em razão do mercantilismo da bola.

França 98. Com o técnico mais entendido e supersticioso (13) de todos em copa do mundo, Zagallo, a seleção foi protagonista de um mistério que até hoje ninguém desvendou, o que aconteceu com o centroavante titular da seleção um pouco antes da final com a França? Convulsão!? Amarelou!? Talvez Edmundo fosse melhor mesmo aquele dia. Pena foi a CBF ter enfrentado uma França jogando em casa, com nosso time, principalmente nosso atacante mor, apático e um Zidane inspiradíssimo. Acabou o jogo e fui ensaiar com minha banda sem maiores consequências.

Coréia do Sul e Japão (ou vice-versa) 2002. Copa para boêmios por causa do fuso horário, jogos em plena madrugada ou de manhãzinha. Se naquele tempo houvesse a febre das redes sociais como hoje, com certeza a “hashtag” mais usadas seria #levaRomario que o Felipão, turrão como sempre, ignorou completamente não querendo uma “ovelha negra” em sua família Scolari. Com um ótimo time tipicamente copeiro e com o craque Rivaldo em sua melhor fase, conseguiram, antes da primeira missa do domingo, o pentacampeonato. Cena impagável dessa conquista foi a perseguição turca ao Denilson na semifinal e a pena foi o corte “a lá Cascão” do Ronaldo.

2006 na Alemanha, era para ser uma das melhores copas já que seria na casa de uma das mais temidas seleções mundiais, mas para quem estava meio desanimado com futebol nesse tempo, não empolgou e foi a copa das defesas, tanto que o zagueiro central da “squadra azzurra” foi considerado o craque da copa. A CBF (a Nike ou a imprensa ufanista) inventou um tal de Quadrado Mágico que com um passe de mágica fez o futebol brasileiro sumir. Pena foi Roberto Carlos ser muito vaidoso com seu meião no gol de Henry para a França.

África do Sul 2010. A copa foi meio que Disneylândia, tudo com muita festa, artistas e tal, tanto que foi na terra do “Rei Leão” e até colocaram o Dunga para dirigir a CBF! Jogadores arrebentando literalmente no Brasil e o técnico apostou mais uma vez num time praticamente europeu e cheio de volantes, porém sem direção. A CBF voltou para casa, isto é, para a Europa mais uma vez prematuramente e o faz de conta ganhou um vilão à altura, Felipe Melo e como um conto de fadas mesmo, não poderia terminar sem um final feliz para o time de Del Bosque com um beijo do arqueiro do time na repórter espanhola aos olhos do mundo. Pena foi não ter levado também a Branca de Neve, brincadeira, pena foi o Uruguai não ter ido ao jogo final e graças a Deus esqueceram as vuvuzelas para sempre!

Brasil 2014… hummm!!! Excetuando do texto os conflitos sociais, protestos, greves, oportunistas, agourentos, ufanistas de plantão, indiferentes, alienados, engajados, contestadores do absurdo do absurdo, Black blocs, #naovaitercopa (…) e outras “cositas” mais, esperava bons confrontos e um campeão sul-americano, mas não foi o que aconteceu, a Argentina do alienígena Messi ficou no quase com a “máquina” Alemanha, e a seleção da CBF não repetiu o feito da “Famíglia Scolari” de 2002 e foi humilhada em casa por um resultado inimaginável no pior dos pesadelos, passando uma borracha do imaginário o Maracanazzo de 50. Em tempo, entre mordedores e mordidos, Suárez e Chiellini foram salvos e vacinados.

Rússia 18!? O clima no geral continua sinistro, bem pior que há 4 anos, mas é copa e longe daqui. Quero ver bons jogos, daqueles memoráveis, fazer meu filho, como eu, gostar do futebol (àquele dentro de campo) por causa de uma copa e tentar esquecer a caça das figurinhas douradas do “bendito” álbum da Panini. Ah! E claro, torcer por uma seleção sulamericana chegar ao topo do futebol, pelo menos até 2022.

Até uma outra e “haja coração”!!!

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