O Encomendador

O Encomendador

Raul era um cara como outro qualquer. Quando criança, sua Mãe lhe fazia levar blusa “porque iria fazer frio mais tarde.” Sua infância foi cercada de amigos e brincadeiras saudáveis na rua. Em resumo, Raul foi uma criança realmente muito feliz.

Quando cresceu, não teve dificuldades para se colocar no mercado de trabalho porque era inteligente. Poderia ter sido um bom engenheiro, diria seu Pai. Mas optou por ser estivador no Porto de Santos. Com essa profissão, certamente não ficaria rico, mas “poderia comer, ter um carro legal, uma casa de classe média e até viajar de vez em quando se tivesse algum juízo”, como sempre alertava seu Velho.

Mas, Raul, assim como qualquer um que era analisado bem de perto, não era um cara normal. Ele gostava de ir a velórios, em especial naqueles onde o morto era conhecido. Tal hábito, no mínimo estranho, lhe rendeu muitas amizades. Os coveiros do Cemitério e as senhoras que limpavam túmulos porcamente pela ninharia de R$ 25,00 mensais o conheciam pelo nome. Era sempre importante fazer amizades, diziam seus pais. “Nunca perdemos nada fazendo amigos”, afirmavam em uníssono.

A maior alegria de Raul era receber a notícia de que um amigo ou parente havia “tombado a carrocinha”, pois assim ele poderia ligar para todos os que eram conhecidos em comum dele e do morto, para ser o primeiro a dar-lhes a triste notícia.

Certa feita, após visitar o túmulo de seus avós paternos e maternos – algo que fazia religiosamente todos os sábados pela manhã – Raul percebeu que o Velório Municipal estava mais cheio que o habitual, e não se conteve: Precisava saber quem era o mais novo presunto do pedaço.

Mas, antes mesmo de conseguir extrair a informação de algum dos presentes ou de um daqueles folhetos feitos pelas funerárias, uma senhora lhe disse, puxando conversa:

  • Não gosto de frequentar velórios, mas dessa vez não tive escapatória…

Sem sequer dar tempo de a senhora completar sua frase, Raul estufou o peito e disparou:

  • Não ligo, desde que não seja eu quem está na horizontal!
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