O Último Caso

O Último Caso

Os moradores do bairro Campo Limpo, localizado na abastada periferia de Vila Verde contam com o privilégio de admirar o belo descampado que lhes emoldura as janelas, principalmente quando os últimos raios de Sol com seu tom alaranjado único toca a grama nas tardes quentes de verão. Um desses residentes é o Advogado Dr. Phídias Mascarenhas de Moraes.

Dr. Phídias, como era mais conhecido, advogava há 65 anos e, no alto de suas 87 primaveras, já não via mais magia alguma no trabalho. Queria ter se aposentado aos 60, mas então sua neta Carla foi aprovada na Escola Paulista de Direito. Ela precisaria de dinheiro extra para se manter na Capital por ao menos 5 anos. Phídias havia assumido a criação da neta juntamente com sua esposa, Erminda, após o único filho do casal, Roberto, sofrer um acidente que lhe ceifou a vida imediatamente e a de sua esposa Fernanda após uma semana de internação. Os dois faziam uma viagem aos Alpes Suíços e haviam deixado a pequena Carla, com então 11 anos, passar as férias de verão com os avós.

Caso sua pupila lograsse êxito e fosse aprovada no Exame da Ordem – o que aconteceu logo na primeira oportunidade – Phídias precisaria trabalhar ainda mais uns 5 anos para garantir que sua nada desprezível cartela de clientes se acostumasse com Carla e então ele se aposentaria. Teria 70 anos quando isso se concretizasse.

Mas não foi assim que aconteceu. Quando o Velho Advogado se preparava para “pendurar a beca”, como costumava dizer, um grande caso surgiu diante de seus olhos: O Banco Verde Oliva havia institucionalizado a pedalada fiscal e seu balanço não correspondia com a realidade há ao menos 9 anos. Quando os clientes se atentaram para tal fato, já não era mais possível fazer nada senão enfrentar uma longa batalha judicial.

Percebendo que Carla não teria ainda a malícia necessária para vencer os escrúpulos de uma grande corporação, decidiu adiar a aposentadoria. Se vencesse, até sua neta poderia se aposentar, pois os honorários sucumbenciais seriam realmente vultuosos.

Quando finalmente venceu o processo, Dr. Phídias tinha 82 anos. Desde então, estava se “preparando para parar”, mas não podia ser “de repente”, pois ainda “tinha alguns processos em andamento”. A partir de 1987, o Decano da Advocacia Vila Verdense já não pegou novas causas, repassando todas as que lhe chegavam às mãos para Carla, sua já experiente neta Advogada. Só que levou mais cinco anos para chegar ao que considerava o fim de sua demasiada longa carreira.

Bem, mais ou menos. A verdade é que, para encerrar as coisas de vez, ainda faltava um único maldito processo. E sua audiência de segundo grau estava marcada para o dia 18/11/1991. Não seria um grande problema, se duas audiências não tivessem sido marcadas para o mesmo dia e hora.

  • Não gosto quando isso acontece – disse Phídias.
  • Sem problemas, eu te cubro – respondeu Carla.
  • Não é esse o problema…
  • Então qual é, Vovô?
  • É que todas as vezes que duas audiências são marcadas no mesmo exato dia e horário, uma das partes morre.
  • Deixa disso, Dr!
  • Estou falando sério, minha neta. Já aconteceu umas 6 vezes ao longo da minha carreira.
  • Credo!
  • Bom, enquanto não for um de nós, estará tudo OK – disse animadamente Phídias, apenas para encerrar o assunto.

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O DIA DA AUDIÊNCIA

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Chegado o dia da Audiência, Dr. Phídias acordou bem disposto, e isso era raro nos tempos atuais. Se levantou, arrumou a cama – tarefa que assumiu com a morte da esposa, três anos antes – e foi fazer o café para Carla. Desde sempre, se acostumou a chamá-la por “minha menina”, mas o fato verdadeiro era que de menina, Carla já não tinha mais nada. Era uma moça formada física e profissionalmente. O cara que se casasse com ela seria um sortudo. Bonita, inteligente, educada, simpática e rica. Enfim, um belo partido.

Antes de sair, foi até o quarto da neta e despediu-se como sempre, dando-lhe um beijo na testa.

  • Vovô já vai. Beltrame já está me aguardando.
  • Tá. Boa viagem Vô. Não vá ficar parando nos postos de gasolina pelo caminho. Para não se atrasar… o trânsito de São Paulo está cada vez mais impossível.
  • Se eu não parar a cada uma hora, mijo nas calças – disse rindo e se afastando.

Beltrame era um policial aposentado que, após deixar as fileiras da Polícia Militar, havia sido contratado pelos Mascarenhas de Moraes para ser-lhes um faz tudo. E era ele quem dirigia para Phídias, desde que este não conseguira mais renovar sua Carteira Nacional de Habilitação devido à idade avançada. Isso foi há três anos.

Assim que entraram no carro, um Monza Classic, Beltrame logo tratou de puxar assunto, como sempre fazia:

  • Vamos parar para comprar Pastel de Belém?
  • Claro. Senão Carla me mata. Ela adora esses doces.

Aquela era uma manhã fria, apesar de já estarem oficialmente na Primavera. Mas a viagem transcorreu bem, como tinha de ser. Até o trânsito ajudou naquele dia.

Lá pelas tantas, quando estavam nas redondezas do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que é o maior tribunal do mundo todo, Beltrame – do nada – pergunta para Phídias:

  • Se o Dr. estivesse com a Morte, o que diria para ela?

A resposta demorou tanto para vir, que o Motorista começou a se perguntar se, mesmo a despeito da longa amizade e companheirismo existente entre os dois, não tinha ido longe demais dessa vez.

  • Eu diria para ela: Chegou cedo para a saída!

Tal resposta, bem característica de seu velho amigo, fez com que Beltrame risse até a barriga doer.

Assim que estacionaram o carro nos fundos do Tribunal, onde haviam algumas obras de arte de gosto duvidoso e sempre uns dois ou três mendigos, Phídias pulou do carro, pegou sua maleta numa mão e a beca na outra.

  • Preciso mijar. Fique por aí, que assim que eu resolver esse assunto, vamos almoçar no Rei do Churrasco!

Após ter “se aliviado”, como costumava dizer, Dr. Phídias vestiu sua beca e se dirigiu até a 5ª Câmara de Direito Criminal. Era lá que ele tentaria livrar a pele de seu último cliente.

Após ter se inscrito para usar a Tribuna durante o julgamento, sentou-se numa das confortáveis poltronas disponíveis nos amplos corredores da Casa de Leis Bandeirante e aguardou.

Não tardou para que reparasse nas vestimentas de suas colegas Advogadas. A maioria delas com vestidos curtos e muito decotados. Tal fato desagradava muito ao Velho Operador do Direito, pois além de desrespeitoso, Phídias considerava que toda aquela falta de pano não passava de estratégia para conquistar um ou outro Desembargador que porventura fosse um pervertido sexual. Isso sem contar que os homens ainda saíam mais em desvantagem, pois tinham de estar com terno completo sob pena de não poderem adentrar na sala de julgamento, o que os obrigava a passar muito calor.

Enquanto pensava no assunto, um jovem colega pediu permissão para se sentar ao seu lado e logo foi abrindo seu laptop.

  • Se é que posso lhe perguntar, filho…
  • Claro!
  • Porque você está lendo sua Petição Inicial agora?
  • Para refrescar a memória e…
  • Pare com isso. Só te deixa nervoso. Se você chegou até essa altura do campeonato, é porque já sabe de cor esse processo.
  • Tem razão…
  • Pelo menos funciona comigo.
  • Bom, já que o Doutor me fez uma pergunta, posso lhe fazer outra?
  • Vá em frente.
  • Como faz para estar atuando já com idade tão avançada?
  • É só você ter que vender o almoço para comprar a janta!
  • Para de brincadeira Doutor – disse o jovem rindo.
  • Falando sério. Quero parar. Muitos anos já se passaram. Não consigo mais me ajustar. Tudo mudou. As leis, os costumes e até os valores sociais. O Mundo de hoje é muito diferente daquele em que me formei. Hoje você já não olha mais no olho das pessoas, não sabe mais quem são os advogados da cidade e muito menos se eles são confiáveis ou não. Tudo isso acabou por causa do maldito computador! Confesso que não gostava de datilografar três vezes a mesma coisa, mas era melhor do que ficar entocado no escritório o dia todo.
  • Entendo… e porque o senhor está aqui hoje?
  • Quero tentar livrar a pele de um sujeito que matou o vizinho porque este falou mal do seu cachorro.
  • Nossa, só por isso?
  • Só.
  • Hoje em dia a vida vale tão pouco…
  • Pois é. Mas, mudando de assunto, qual é mesmo o seu nome?
  • Rodolfo! Prazer em conhecê-lo, Dr…
  • Phídias.
  • Rodolfo, você sabia que quando uma pessoa morre, seu cérebro ainda tem 7 minutos de atividade? E que nesse tempo, ela revê suas memórias em uma sequência de sonhos?
  • Não… que interessante!
  • Pois é. Sempre gostei de curiosidades.
  • Eu também…
  • Gosto muito daquela revista, a National Geographic. Tem curiosidades e fotos bonitas.

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O DIA DA AUDIÊNCIA

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Quando voltou ao carro, a primeira coisa que Phídias disse foi:

  • Precisamos almoçar. Estou realmente com fome. Essa droga de Audiência levou a vida toda pra acontecer!
  • Mas ao menos o Dr ganhou?
  • Sim, mas demorou tanto que eu já estava quase desistindo em prol de um bom pedaço de carne assada – disse rindo.

O Rei do Churrasco ficava no KM 38 da Castello Branco, sentido Vila Verde. Assim que estacionaram o carro numa vaga relativamente próxima da porta, Beltrame chamou:

  • Dr. Phídias, acorde! Chegamos…

Como nenhuma resposta veio, Beltrame tocou as mãos do amigo. Elas estavam frias, mas ainda não enrijecidas. A vida era realmente ingrata. O grande Dr. Phídias Mascarenhas de Moraes morreu dentro de um carro, quando voltava de seu último trabalho. E com fome.

De tudo, a única coisa em que Beltrame conseguia pensar, era que a vida de Carla perderia a cor, pois junto com o Avô querido, a moça perderia uma parte de seu coração assim que soubesse da triste notícia.

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